5.2.07

Républica "Os Kágados"


Venho vos apresentar o sr. Dr.Farrica,figura muito querida na cidade do Lobito.Com a sua autorização, trago aqui o seu último escrito que me enviou.Deliciem-se,


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Caro José Belo

Em 1933 ou 34, era eu estudante em Coimbra e fui viver para uma "República" de estudantes situada na rua dos Correios , que dava acesso ao Teatro Sousa Bastos. Era a célebre "REPÚBLICA DOS KÁGADOS", nome bem escarrapachado numa tabuleta a todo o cumprimento de uma sacada que dava para a rua. Por cima da palavra escrita em letras garrafais (KÁGADOS) existia um acento agudo sóbre o A. Certo dia, comprei uns três metros de arame, estendi-o por cima da palavra "KÀGADOS) e pendurei nele um acento agudo em madeira que podia correr ao longo do arame por nele estar preso com uma arg
ola. Depois disso, quem por ali passasse às 2ª-feiras podia ler, pela posição do acento móvel a palavra KÁGADOS, na terça-feira o acento era deslocado para a direita e a"republica" passava a chamar-se KAGÁDOS e no dia seguinte -KAGADÓS. As mesinhas de cabeceira eram um barril de 25 litros do qual saia um tubo de irrigador cuja extremidade com a cânula era presa à cabeceira da cama. Sempre que a sede apertava - ou mesmo noutra altura qualquer - o utente da cama metia a cânula na boca, abria a torneira e aspirava a quantidade de vinho que lhe apetecia. Na sala de jantar tínhamos um irrigador pendurado no tecto, onde havia uma roldana que permitia elevar ou baixar o irrigador à medida das necessidades. Puxando o tubo para junto dos nossos copos, abriamos a cânula e enchíamos o copo destinado a ser esvaziado de um momento para outro. Quando o irrigador se esvaziava, auxiliado pela roldana por que passava a corda, baixavamo-lo e tornavamos a enchê-lo de harmonia com as necessidades da "malta".
Parecendo que este episódio nada tem a ver com o seu em que apresenta a mobilia feita de caixotes e de barris, existe entre eles um certo parentesco, pois em ambos os casos as pipas estavam em uso.

Um comentário:

Maria disse...

Como sempre... uma delícia ler os seus escritos Dr. Raul.

Se não estou enganada a placa dessa república ainda lá está.

Pelo menos em 2004 tenho ideia de a ter lá visto quando por lá andava recordando também os meus tempos de Coimbra.

Um beijinho para si e...também para ti, Belo.


Pedreirinha